A FATO E A GRAVATA
Jorge Gomes Silva
 
 
Deitou-se arrasado, depois de um dia interminável. Nem comeu.

Sentia-se tão cansado que não tinha sono, apenas uma enorme vontade de dormir. Deitou-se de costas sobre a cama e fixou o tecto, tentando encontrar na monotonia daquele padrão ondulado a sonolência que tanto sentia precisar. Passados alguns minutos, constatou que a receita não resultava. Suspirou.

Lembrou-se de um clássico. Projectou com a imaginação uma cerca e um apreciável lote de ovídeos que se disporia a contar, até à exaustão. De cada vez que imaginava uma daquelas bolas de lã com patas a pular como um cavalo educado na melhor escola de equitação, bufava. Mas nem uma vez bocejou.

Trocou os cordeiros pela mais diversa bicharada. Cangurus e coelhos, pulgas e gafanhotos. Nem um elefante faltou à chamada, mas esse não saltou. Antes destruiu a vedação imaginada e com ela a esperança de que o expediente resultasse num sono repousante e feliz.

Acabou por se levantar, foi à janela espreitar o resto do mundo que dormia e invejar em silêncio, vento frio a soprar-lhe entre as orelhas e a gola do pijama, o descanso imprescindível que até uma cidade enorme se permitia usufruir. Sacudiu-se num arrepio. Todavia, insistiu em enfrentar a brisa glaciar daquela madrugada de final de Outono.

Estava bonito, o céu. Carregado de nuvens iluminadas pelo reflexo laranja da iluminação urbana, parecia abraçar a superfície abaixo, como uma gigantesca almofada onde os anjos dormiam ferrados e sonhavam o dia a seguir.

Ele pensava o dia acordado, gelado, em discreta vigília do sossego nocturno da totalidade dos habitantes daquela rua. Nem um gato vadio quebrava a paz daquele momento tranquilo, todos ressonavam bem alto e faziam pirraça ao protagonista sonâmbulo de um pesadelo vulgar. Acendeu um cigarro. Assim mantinha entretida a boca que reprimia a vontade de berrar o desagrado, de acordar à força a vizinhança e torná-la solidária num período difícil da vida de qualquer cidadão. Sentir-se-ia menos só, se pudesse trocar umas impressões sinceras com o pianista do lado ou com a doméstica de cima, tanto fazia, acerca das broncas que lhe atormentavam a vida e lhe tiravam o sono. Os problemas que o despertavam para a falta que faziam os outros em hora de aflição. Esta era a sua.

O relógio na cabeceira, implacável, contava em taques os segundos que se escoavam rumo à hora de levantar outra vez, os tiques diários, apressado ritual de pequenas tarefas que todas somadas pareciam inventadas só para o atrasar. Ele corria, vida em contra-relógio, sempre com medo de faltar à chamada do autocarro, carreira vinte e um, que passava na rua detrás precisamente às oito horas. Nem mais um minuto, motorista cumpridor de um raio que o parta, o seguinte só passado um quarto de hora e o patrão não perdoava tanta desculpa igual. Como se fosse obrigação de alguém ter pressa de chegar à merda de emprego que sua alteza se encarregara de providenciar. Era a aventesma do patrão que o privava de dormir, com a miséria de ordenado que não compensava o serviço de qualidade superior que lhe prestava aquele magnífico funcionário que merecia uma promoção. Mas isso, o sacana não apressava. Filho da mãe!

Sentiu o sangue fluir pelo corpo, rompendo a custo as barreiras de mau colesterol que haviam de o conduzir ao enfarte de miocárdio tradicional do operário urbano, moderno, atascado em papelada num agitado escritório. Morriam novos, as estatísticas o diziam, os trabalhadores do terciário mais empenhados em singrarem na vida, em progredir. Sobretudo os que não dormiam, pensou. E sentiu ainda mais o frio da madrugada, apagou o cigarro e enfiou nos lençóis a carcaça dorida, já o sol rasgava a noite por detrás do horizonte de betão. Precisava mesmo de dormir.

Mal teve tempo de encostar o rosto no travesseiro, em sonhos, que o maldito despertador desatou numa berraria. A insônia era mentira e estivera sempre a dormir. Deitado de costas, fato e gravata, tal e qual adormecera, acordou mil vezes mais fatigado que no dia anterior.

Do outro lado da cidade, nesse mesmo dia ao jantar, um menino contou aos pais, impressionado, como no caminho para a escola, pelo vidro da traseira do vinte e um, viu pela primeira vez na sua vida um homem crescido a chorar, ajoelhado num abraço a uma paragem de autocarro vazia.

 
 
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