BUSCANDO HORIZONTES
Alberto Carmo

Estava cortando a grama do quintal, quando me veio à cabeça o final da história contada em "Horizonte Perdido", de James Hilton, e o médico, quando perguntado se havia acreditado naquela história utópica que ouvira de Conway, respondendo apenas: - Acredito, porque quero acreditar!

Seria possível uma Shangri-La? - perguntei-me. Achava que sim, honestamente achava. Mas parecia tão distante no futuro. Continuei a cuidar do gramado, que estava mais presente.

- Pois então acredite! - veio uma voz detrás da cerejeira.

Não dei atenção. Imaginei que fosse o sol zombando do meu pensamento. Enxuguei o suor e retomei o trabalho.

- Onde está seu horizonte? - insistiu aquela voz.

Desliguei o cortador e olhei ao redor. Alguém estava ali me espiando. Ouvira perfeitamente. Busquei alguma agressividade na garganta, e ordenei:

- Quem está aí? Saia logo! O que quer?

Um senhor calvo, vestido de longo tecido púrpura, surgiu em minha frente. Tinha traços ligeiramente orientais, o rosto suave, os olhos de um brilho profundo.

- Como vai, meu amigo? - perguntou, como se me conhecesse todos os passados.

- Chang? Não é possível, devo estar delirando! - respondi esfregando os olhos com as mãos suadas.

- Você quis acreditar, então estou aqui, Conway! - e abriu os braços a me chamar.

Não sei se por estranha sensação magnética, se por desvario, abracei-o fortemente, tal um amigo que chegasse de distante país. O peito me apertou e trouxe um choro descontrolado, como se todos os sentimentos guardados em cruel calabouço fossem libertos violentamente de longínquas correntes.

De volta ao consciente, afastei-o bruscamente e reagi:

- Não sou Conway, sou...

- Acalme-se, Conway! - disse com voz branda.

Decidi não discutir mais com meu inconsciente e aceitei o diálogo fraterno. Não podia lhe ver os pés, parecia flutuar no tapete verde. Era uma visão, um sonho. Resolvi não me fazer acordar, tamanha a sensação de bem-estar que recebia daquele forasteiro que eu tão bem conhecera nas horas de meditação.

- O que quer comigo? Por que está aqui? - perguntei-lhe já em tom amigável.

Chang indicou-me uma sombra sob a laranjeira e se sentou me aguardando. Sentei-me ao seu lado e ouvi suas histórias. Falamos por horas, lembramos de lugares onde jamais estive, de pessoas que jamais conheci. Rimos das crianças que se banhavam em cachoeiras onde meus pés não haviam tocado. Relembramos o perfume de flores que jamais colhi.

Fomos até a casa e lhe servi um suco. Ele caminhava pelos ambientes, sorria emocionado ao ver as fotos dos meus filhos. Perguntei-lhe porque nunca se casou, porque não tivera filhos. Ele sorriu e me sussurrou:

- Ela ainda está lá esperando seu retorno. Está linda e apaixonada.

Ao ouvir isso, abracei-o com tamanha força que me doeram os braços. Quis saber de tudo. O que fazia, se ela se lembrava de mim, se ainda me queria. Queria saber se aqueles olhos claros ainda sorriam ao amanhecer. Perguntei se ainda era adorada pelas crianças que ensinava.

Paciente, ele tudo me contava. Não deixava escapar detalhe sequer. Contou-me que a irrigação trouxera mais felicidade a todos, a colheita aumentava e o trabalho era menos rude. Disse-me que o ouro encontrado no riacho era usado pelas crianças em jogos e brinquedos, que as festas noturnas, iluminadas pelas tochas eternas, jamais foram abandonadas.

Eu exultava em ouvi-lo. Traçava lembranças entre lágrimas e saudades. Via-me rodeado de crianças, em roda, a pousar uma flor naqueles cabelos dourados. Sentia ainda o gosto doce daquela boca que me beijava em tons de olhos de esmeralda.

Chang retirou-se a um canto da sala. Permaneci estanque, percebi-lhe um choro triste e silencioso. Voltou-se com olhos saudosos e falou com voz enternecida:

- Venha logo, estamos esperando...

Corri até a despensa e busquei o vinho mais brilhante. Queria selar aquele momento com um brinde de cúmplices. Voltei à sala com cálices de cristal, onde depositaríamos os planos da viagem que haveríamos de fazer.

A sala estava vazia. Um aroma de lótus permanecia no ar. Corri ao quintal - anoitecia. Gritei em desespero: - Chang! Chang!

No céu, vi um cometa se afastando como gota distante. Ao seu lado, uma estrela prateada, dançando em vestidos de espuma, deixando um rastro esverdeado no espaço...

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