REVOLTA INÚTIL
Beto Muniz

 
 

Foi no final do ano, depois da festa de confraternização da empresa, da troca de presentes entre amigos secretos e demais rococós que colegas de trabalho costumam se dar ao direito, após um ano inteiro armazenando desavenças e frustrações. Eu ganhei duas camisas que foi entregue acompanhada de observações tolas "Escolhi estas cores e modelos que seguem as novas tendências". E? - pensei ao vê-las - Que tendências? Uma cor rosa-salmão com botões prateados poderia facilmente ser enquadrada no padrão metrossexual, e a segunda de um tecido grosso azul escuro e gola de padre só poderia ser exibida numa festa de sábado a noite de outono. Mas me calei, educado que sou, diante do comentário inócuo que mais traduzia uma desculpa por meu amigo oculto ser tão oculto - e meu desconhecido, que não tinha a mínima idéia do que poderia me agradar, muito menos saber dos meus gostos e tendências. Coitado, a culpa não era dele e sim da empresa que praticamente forçou as pessoas a este tipo de constrangimento, ao querer integrar o operador de empilhadeira lá do depósito central, com o pessoal de informática do oitavo andar. Todos com o nome na mesma caixa de papeizinhos que a auxiliar de recursos humanos transportou durante duas semanas de novembro, departamento pó departamento nas quatro unidades que formam a empresa.

Foi depois da festa de confraternização onde vários micos foram trocados, quando eu e minha equipe, cada qual com seu desembrulho e alegria alcoólica, caminhava em direção ao estacionamento que os sujeitos apareceram. Calmo, com voz clara e pausada para que os bêbados entendessem bem a ordem: "Fiquem calmos e nos sigam sem barulho para que ninguém se machuque". Todos entenderam perfeitamente, mas não a ordem, e sim a arma de boca negra apontada para o grupo. Cinco no total. Armas, nosso grupo era formado por maior número. Fomos conduzidos até o primeiro andar, a festa era no pátio do outro lado do prédio e organizada por um serviço de buffet que servira vinhos baratos e cerveja boa. Os quitutes, lanches de metro e rapapés obrigatórios também eram de boa qualidade, não sobraria nem farelo dos sanduichões se dependesse do empenho dos mecânicos e ajudantes gerais. Estes ainda na festa, comendo e bebendo, o pessoal da informática foram os primeiros a dar adeus a esbórnia self-service e por isso estavam lá no primeiro andar, rendidos junto com os gerentes, os segundos a dar adeus a festança e serem conduzidos pelos assaltantes.

Foi depois que vimos as caras assustadas dos gerentes e as feições estranhemente animadas dos informáticos que soubemos a real: " Estamos limpando os escritórios, quem tem celular, corrente de ouro, anel e relógio de boa qualidade ou dinheiro pode colocar neste saco". O sujeito oferecia a boca de um saco de lixo preto para os recém chegados enquanto apontava a arma para o primeiro da fila, eu. Tirei o celular e alguns trocados dando graças a Deus por não estar com mais dinheiro no bolso e também estar sem talão de cheques. Trouxera apenas um cartão visa para emergências, e pelo jeito ele não teria a oportunidade de ser útil. O Sujeito passou por mim estendendo o saco e a arma para o segundo da fila e seu comparsa me puxou para o lado dos rendidos. Antes de me entregar ao bandido guardador de rendidos perguntou se aquele desembrulho era o presente do amigo secreto, diante da resposta afirmativa ele ousou fazer uma paiadinha que achei infame: "Sou o seu amigo secreto, pode me entregar o presente". Nem protestei, apenas imaginei aquele individuo vestindo uma camisa rosa com botões prateados. Entreguei e fui sentar ao lado do gerente de vendas, um sujeito falante e risonho que pela primeira vez eu via calado com os dentes guardados. Passava da meia noite quando fui rendido e roubado, aproximadamente trinta minutos depois outros bandidos apareceram, descendo pelos elevadores com cargas e mais cargas de informática. Limparam o departamento. Os funcionários da informática olhavam aquilo como se não acreditassem. Seus notebooks, micros, roteadores, modens, impressoras, monitores e tudo mais sendo levado pela dezena de sujeitos estranhos.

Foi na segunda feira seguinte que as lamentações se faziam ouvir. Eu perdera um celular e duas camisas estava revoltado com a verve humorística do safado que levara minhas camisas - isso porque nem tinha gostado delas. O pessoal da informática que tinha perdido celulares, presentes e também as ferramentas de trabalho deviam estar mais revoltados. Coitados. Mas para alegria dos rendidos a empresa se propôs a indenizar todos os funcionários assaltados, celulares, relógios, presentes e demais objetos levados seriam avaliados e reembolsados. Menos, claro, o dinheiro vivo surrupiado de cada um. Comemoração entre os informáticos, que lamentavam apenas as perdas pessoais, os equipamentos levados eram obsoletos, alguns já inutilizados pela velocidade com que chips são substituídos. O departamento inteiro modernizado. Só eu continuava revoltado, mas com o cara da piada.

Foi depois, bem depois, que soubemos a verdade por detrás do assalto. Policiais cometiam os roubos para plantar a insegurança e depois vender serviços de vigilância. Maldição! Meu amigo secreto era um policial. No dia do reconhecimento eu estava de olho bem atento querendo encontrar o sujeito que me roubara o presente e ainda fizera piada. Só faltava ele estar vestindo uma das duas camisas! Veria com quantos risos se termina uma piada. Safado.

Foi durante o reconhecimento que suspeitamos estarmos diante de outra farsa. Nenhum dos apresentados foi reconhecido pelos rendidos naquela noite de confraternização. Saímos da delegacia com a suspeita de que o corporativismo funcionou e apresentaram apenas policiais que não tinha participado da coleta na empresa. Ou seja, tudo armado o tempo todo e neste teatro eu era um coadjuvante, ou menos! Um figurante percebendo a atuação da empresa na festa: "viram como somos bacaninhas com nossos empregados? Estamos bancando esta enorme festa apenas para vermos todos felizes". Depois o ato do assalto: "Viram como vocês estão inseguros?". Entra em cena a turma da vigilância: "Viram como somos necessários? Se estivessemos aqui nada teria acontecido" e finalmente a apoteose no palco do reconhecimento: "Viram como a policia é inocente destas acusações". Desce o pano que cobre minha indignação e revolta. Piada.

 
 

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