TENTAÇÃO
Alexandre Ferreira
 
 

- Você vai precisar de nervos de aço, meu filho.

As palavras de Padre Vittorio ainda ecoam, vivas, dentro da minha cabeça como se ditas à pouco.

De joelhos, diante da cruz, procuro o alivio de meus pecados orando e me penitenciando no silêncio do meu quarto de dormir.

O pecado tem me rondado com a constância de um lobo, que acua e amedronta sua presa. As tormentas desencadeadas pelos desejos da carne vêm destruindo toda a fortaleza adquirida em anos e anos de oração e dedicação a Santa Sé.

Delicados passos no soalho do corredor interrompem minha concentração nas orações. Imaginar que ela pode estar se aproximando me deixa atônito. Batidas leves na porta, a concentração se vai, eu não vou atender, a mão na maçaneta gira de leve o trinco da porta, tento recobrar o juízo e aumento a intensidade das orações, o calor que vem do corredor invade o quarto queimando minhas costas e nuca como se as portas do inferno estivessem a poucos metros de mim.

- Padre?

A voz doce reboa no calar da penumbra que me rodeia, as partículas do ar vibram, seu cheiro entorpece os 4 cantos do cômodo, minha pele grita, berra, eu me calo, rezo.

- Não estou bem Padre! Meu corpo arde como brasa, um calor infernal, a febre está me consumindo, me ajude, por favor!

Nunca tive medo do demônio, mas hoje sinto seu bafejar quente tão próximo que um calafrio percorre todo meu corpo me fazendo arrepiar. A mão que toca meu ombro implorando ajuda me tira de um transe forçado e faz meu coração bater apressado. Preciso ser forte. Uma torrente de coragem de me invade o corpo e me levanto, virando de frente logo em seguida.

- Cubra-se já Senhorita, pelo amor de Deus!

- Não posso Padre, o calor é atroz, é aflitivo demais ficar vestida.

Cabelos negros, olhos azuis, boca rosada, colo levemente acobreado, mãos cobrindo o púbis, lingerie branca. Seminua e transtornada ela me olha. O vestido jaz à porta, débil, inerte, jogado.

- Cubra-se Srta. eu imploro.

- Preciso de ajuda, Padre! Minha cabeça gira, meu peito queima, um fogo intenso arde em meu ventre e me molha como se um vulcão estivesse a derramar sua lava entre minhas coxas.

- Tens o inferno entre as pernas mulher. Afastas-te de mim. Eu ordeno.

O calor do inferno me queima face e corpo, ela se aproxima, o calor aumenta, a garganta seca, a voz de Padre Vittorio se faz ouvir novamente, meus nervos estão em frangalhos, nervos de aço sendo consumidos, como palha seca, pelo fogo do desejo.

- E tu. O que tens entre as pernas Padre?

- O diabo Srta. Tenho o maldito diabo entre as pernas.

- Pobre diabo, tão longe do seu lar. Pratiquemos a caridade então, Padre. Pois creio que não haja ato mais caridoso do que por o demônio no seu devido lugar. Concordas?

Malditas palavras. E o incêndio se fez, consumindo com suas chamas os corpos febris. A astúcia, mais uma vez, venceu a benevolência. E os nervos de aço, tantas vezes fundidos e temperados pelos anos de abstinência e celibato, se renderam frouxos aos encantos do pecado original.

 
 

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