IM(PIEDADE)
Glatson

Sentado na noite escura e fria de um dia qualquer de dezembro; vejo luzes transparentes e cálculos renais.

Sou um ser impiedoso: essas luzes não me comovem mais que uma noticia de jornal.

O que tenho para dizer e o que digo quase sempre choca as pessoas; não sei porque.

O que sei é que essa coisa de sentir pena (piedade em última instância) só se instalou aqui depois do cristianismo. Não tenho nada com o cristianismo; não sou contra nem a favor. As pessoas são livres para decidirem suas vidas.

Tenho piedade de quem? do filho, do pai, da moça da esquina que dorme na calçada com as pernas (à mostra e) sujas? Não.

Sou uma pessoa má: de má qualidade, de má índole. Sou um ser supérfluo, mesquinho, esquecido por natureza.

A natureza (esta que me criou) também é enganadora e suja, e cruel.

Piedade de nós meu senhor, porque pecamos (e continuaremos a pecar): porque a carne é lânguida, o vinho suave, o aroma bom, a música bela; as luzes coloridas da taverna são um prazer para os olhos.

Piedade senhor! Os homens sabem que pecaram e continuaram a pecar: a música, o aroma, o vinho, a carne...

É breve o enredo que separa o céu e o inferno (estamos mais para o segundo...)

Piedade Senhor. Porque pecamos e continuamos a pecar... (e isso é bom).

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