UMA MANHÃ
Thiago Tenório Cavalcanti
 
 

O frio agasalhou a cidade. Mas eu trazia meu sol comigo. Os paulistanos abrigavam-se nos seus casacos, moletons, jaquetas e sobretudos. Enquanto isso, eu fervia. Foi quando fui dar diante àquela igreja. Aquela da imagem grandona do Santo Expedito. Na porta de entrada havia uma enorme faixa dizendo que celebrariam várias missas em comemoração ao dia 19 de abril. Dia do Santo Expedito. Santinho meu! Como pude esquecer? Fui entrando na igreja, atraído por várias barraquinhas com aquelas mulheres boazinhas perguntando se você quer alguma coisa. Adoro o clima de algumas igrejas, adoro barraquinhas, essas mulheres boazinhas, essa coisa interiorana. Sempre fico embevecido em lugares assim. Foi então que vi uma barraquinha diferente. Não tinha nenhum artesanato, nem pinturas, nem quitutes, nem sopa, nem terço, nem cruz. Tudo que nela havia era um bolo enorme, todo adornado. Uma senhora sorrindo já veio me esclarecendo:

- É um bolo abençoado pelo padre. Dentro foram colocadas várias medalhinhas de Santo Expedito, distribuídas aleatoriamente, uns pedaços com, outros sem.

- O que acontece se eu pegar um pedaço com medalhinha? - perguntei cheio de esperança.

- Você faz um pedido. E por ser uma data especial, Santo Expedito se encarrega de realizar todos, de imediato.

- Que legal. Vou levar um pedaço.

Sentei num dos bancos no pátio da igreja e ajeitei o guardanapo de modo que pudesse cravar meus dentes na parte do bolo com mais recheio. Hesitei. Fiquei ali, encarando aquela fatia cheirosa à minha frente. Qual pedido deveria desejar? Desfilaram todos na passarela da minha dúvida, desejos dos mais variados, iam e vinham, cheios de charme, trocavam de roupa, usavam acessórios, tudo pra me convencer à cerca de qual seria o predileto. Disputa inútil; após muitas mordidas e muita torcida em cada pedaço, ficou claro pra nós, meus desejos e eu, que não havia medalhinha na minha fatia de bolo. Um pouco magoado, me convencia de que isso era uma bobagem, não valia a pena, não era importante, uma coisa de nada, esquece, vai viver, mas porque não paro de pensar e repetir isso, já está o parágrafo se alongando, chega, muda o rumo da prosa, vai caminhando e deixa essa igreja, nessa hora quando ia saindo, ouço uma risada de alívio, de satisfação.

- Opa, desculpe... me empolguei - a dona da risada se pronunciou encolhendo os ombros.

- Tudo bem.

- É que encontrei a medalhinha no meu pedaço de bolo. - ela continuou me dando explicação com um ar espontâneo, com uma intimidade natural, como se eu não fosse um estranho.

- Ah... isso. Bom, bom pra você. - falei cerrando os olhos, ameaçador, enquanto mostrava meu guardanapo.

E ela surpreendentemente morreu de rir, assim, sem esforço, natural, sabedora das minhas nuances de comediante medíocre.

- Desculpe, não sabia... é muito chato né. A gente fica se convencendo que é bobagem, mas no fundo torce pra achar a medalhinha... não tem jeito, sempre cria uma expectativa.

- Isso é. E me diz, é boa a sensação?

- É uma alegria boba. Não é nada demais, ainda mais que nem sou católica praticante. Mas é boa a sensação.

- Já fez o pedido?

- Ia fazer agora.

- Vou te deixar à vontade.

- Não, pode ficar. Só fica quietinho um instantinho.

Pra minha surpresa, naquele instantinho de silêncio ao lado dela, tendo ao fundo as vozes das mulheres boazinhas, senti uma profunda paz, me senti profundamente feliz, pleno. Foi um dos momentos mais confortáveis da minha vida.

- Pronto. Será que vai se realizar? Depois te conto.

- O que você está fazendo nessa igreja?

- Minha mãe está naquela barraquinha ali. Vim pra ajudar. E eu também gosto de vir pra cá às vezes.

- Por que?

- Faz lembrar o clima da minha cidade. Clima de cidade pequena. Eu gosto. E você?

- Eu estava passando. Andando sem pensar em nada. Sem notar parei aqui. Não sou muito religioso, mas tenho uma estória com Santo Expedito. Engraçado, nunca tinha prestado atenção nessa igreja.

- É bem bonita.

- Eu estou aqui lembrando. Quando eu era mais novo, eu tinha mania de sair por aí, à toa, pegava um ônibus qualquer, pra qualquer lugar, passava o dia assim, da janela vendo as pessoas na rua, conversando com trocador, motorista, é. Faz tempo que não faço isso.

- Hoje você fez. Não foi de ônibus, mas fez. Seus pés te trouxeram aqui. Viu só?

- É.

- Débora! Me dá uma ajudinha aqui, menina!

- É minha mãe. Tenho que ir.

- Também tenho que ir. Ei, e vem cá, você, você... quer dizer... você vem sempre aqui?

Patético. Ela começa a rir de novo. Eu sacudo as mãos, quero gesticular dizendo que a frase saiu estranha mesmo, ela acena que entendeu, a gente se entende.

- A frase saiu estranha.

- Agora que descobriu a igreja, vê se aparece. Ah, e depois vai ter que me contar sua estória com Santo Expedito.

- Só se você me contar o seu pedido.

- Mas aí ele não se realiza.

- Será?

- Depois te conto.

- Certo. Trato feito.

Então ela disse tchau. Eu fui caminhando em bolhas de nuvens, cantarolando alguma coisa fora do tom. A senhora que me serviu o pedaço de bolo, notou a minha alegria boba, dessas que são boas de sentir, quase uma bobagem, e soltou essa:

- Ora ora... posso saber porque está sorrindo assim?

- Achei minha medalhinha, achei minha medalhinha.

(...)

Uma manhã tão feliz por conta de uma medalhinha.