MEU AMIGO CROCODILO
Andrea Natali
 
 

Lilica morava num sítio bem bonito, afastado da cidade. Todos os dias, a menina ia até o lago apreciar os peixes e conversar com os passarinhos. Era o seu passatempo de fim de tarde. Chegava da escola, almoçava, fazia suas lições e depois brincava no lago.

Como era filha única, Lilica dizia aos pais que seus irmãos eram o cachorro, os peixes, os patos, as árvores, tudo o que tinha ao redor do lago. Ficava até de noitinha e só saía de lá quando a mãe chamava para o jantar.

Um certo dia, ela chegou no lago e viu uma coisa diferente. Um bicho meio estranho. Saiu correndo e chamou o seu pai, que acabava de chegar da lavoura.

- Pai, vem ver um bicho estranho. Tô com medo!

- Filha, aqui no sítio não tem bicho estranho. Você conhece isso aqui como a palma da sua mão, por que isso agora?

- Tô com medo, pai, ele vai me morder!

A menina esperneou tanto que o pai cedeu a chantagem e foi até o lago.

- Filha, isso é um crocodilo! Não mexe com ele, que o bicho não vai fazer nada com você! Ele gosta de ficar debaixo d’água.

Virou às costas e deixou Lilica ali, sozinha, contemplando o bicho e vencendo o seu medo.

Os dias se passavam e o crocodilo continuava no mesmo lugar. Lilica foi se acostumando com ele. Primeiro, achou ele feio. Depois, nojento. No terceiro dia, ele já tinha uma carinha simpática. No fim da semana, bonito e sorridente. Dez dias depois, o crocodilo era o seu grande amigo.

Lilica contava todas as aventuras da escola para o crocodilo. Ele sorria, dizia ela. Ele gostava de ouvir suas histórias. E quando a história era bem divertida, ele abria o bocão e soltava aquele som engraçado.

Com o passar do tempo, Lilica ficava cada vez mais perto do crocodilo. Já não tinha mais medo. Ela sentava numa pedra e se portava do lado do réptil, conversando como se fossem duas mocinhas. Um dia, enquanto ela estava no lago, sentada ao lado do crocodilo, apareceu um gatinho perdido. Percebia que em suas peripécias se afastou e perdeu o caminho de casa, pois ainda era pequeno.

A menina, fascinada por bichos, logo tratou de chamar o gatinho.

- Gatinho, gatinho, venha aqui... Olha, crocodilo, que gatinho lindo...ahhhhh!!!

O crocodilo, que até então era um bicho inofensivo, se sentiu ameaçado com a presença do gato. O bichano chegou perto, assustado, mas já em posição de ataque, quando o réptil abriu a boca e tentou agarrar o gato.

Por muito pouco, o gato conseguiu escapar. A menina se assustou e gritou tão forte e tão alto, que mobilizou toda a vizinhança. Sem sair do lugar, Lilica ficou estática, em choque com aquela atitude do seu amigo. Ele não podia maltratar um bichinho tão bonito quanto aquele gatinho perdido.

O crocodilo ficou mais agitado ainda e começou a se movimentar e ameaçar a menina. O pai chegou com a espingarda na mão e vendo aquela cena, não teve dúvidas senão atirar no crocodilo. A menina chorava, chorava, debulhava-se em lágrimas. Sua mãe pegou-a no colo e levou-a para dentro de casa.

Durante dias e dias, Lilica ficou sozinha no quarto. Não ia mais brincar. Não gostava mais do lago. Por muito tempo, ela deixou de ter “irmãos”.

Já mocinha, anos mais tarde, numa tarde ela chegou em casa triste, por ter brigado com o namorado. O rapaz, com quem ela sonhava se casar, apareceu na escola com outra moça e não lhe deu nenhuma satisfação, apenas disse “Lilica, você não é mais parte do meu mundo”. E naquela tristeza profunda, resolveu ir até o lago.

Anos depois do episódio, onde o então amigo crocodilo quase comeu o gatinho e matou a menina de susto, ela voltou lá. A paisagem era a mesma, apenas não havia mais um crocodilo. Lilica sentou na mesma pedra em que se posicionava quando criança. Refletiu durante várias horas. E num determinado momento disse a si mesma:

- A única vez em que chorei por um animal, eu era pequena. Ele era meu amigo e não teve a intenção, agiu por instinto. Desta vez, eu não vou chorar, porque ele não é um crocodilo, ele é um verme. E vermes não merecem lágrimas, só o lixo.