Tema 183 - Besteirinhas
BIOGRAFIA
NADA DEMAIS
Sharon Ratis

Outro dia, atendi um telefonema:

- Alô.

- Filha ? É o papai.

- Desculpe, o senhor ligou errado.

Daria minha existência para que este telefonema não fosse engano. Uma besteira que me persegue há semanas, até agora. E que dá um nó bem apertado no meio do meu sossego quando paro a fantasiar que podia ser verdade.

- Filha ? É o papai.

- Pai ?

- Espera, não desliga.

- Desculpe, o senhor ligou errado. Meu pai morreu quando eu era um bebê. .

- Não. Liguei certo. Liguei para você, minha filha. Não morri. Bem que tentaram.

- É você, papai ? - o coração aos pulos.

- Olha, você não precisa falar comigo, acho que nem tenho o direito de ligar, mas vi teu nome na lista telefônica.

- É você mesmo, pai ?

- Escuta, não morri. Sumi para que não acontecesse nada pior com sua mãe, com sua irmã e com você.

- Onde você está agora ? - encho um copo com uísque. Sem gelo.

- Perto. Sempre estive perto o bastante para saber de vocês.

- E a anistia, pai ? Por que você não voltou depois da anistia ?

- Para não atrapalhar o trabalho que sua mãe fez. Para não confundir sua cabeça adolescente.

- E me deixou crescer sem pai por isso ?

- Você teve uma figura paterna. Esteve sempre bem orientada. Se fez besteiras, é porque é igual a mim. Sangue não é água, minha filha.

- Diz de novo.

- O que ?

- Me chama de filha de novo. Eu nunca gostei que me chamassem assim.

- Minha filha. Minha super S.

- Eu li esse poema.

- Escrevi para você.

- Também escrevi um conto para você.

- Você escreve ?

- Não. Só umas besteiras. Não chego aos seus pés. Fico querendo ser igual a você, mas sou só um rascunho. - mais uísque. Acendo um cigarro.

- Você herdou o que eu e sua mãe temos de melhor.

- Não tenho a coragem de vocês.

- Mas tem a ousadia, a esperança, a mesma vontade de mudar o mundo.

- Se você soubesse o que tenho feito de minha vida!

- Eu sei. Você tem me procurado em todos os lugares que não estou. Você gosta de tal música porque eu gosto. Gosta de tal filme porque eu gosto. Escreve porque eu escrevo.

- Não sei mais o que sou eu ou o que é você.

- Sabe, sim. É só parar e pensar com calma nas coisas.

- Não é tão simples. Confundo tudo, misturo tudo, não me lembro de nada. Esqueço de tudo, não consigo mais me concentrar. Enjôo de tudo tão depressa! A coisa mais importante do mundo hoje é esquecida ou trocada por outra amanhã.

- E ouve os outros dizerem que você não tem atenção, que é relaxada, não é ?

- É. Mas não sou assim. São os outros que dramatizam. Que se preocupam com besteirinhas.

- Também sei disso. O que você faz é continuar me procurando. Não estou naquele que você quer para pai de seu filho. Aquele é seu espelho. Podia ser seu companheiro, mas você é tão mais do que ele, minha filha!

- Estas duas palavras se encaixam na tua voz, meu pai.

- Não me procure mais no corpo do outro. Ele nasceu no mesmo dia que eu, seríamos bons amigos, mas somos pessoas distintas. E, sim: vocês se conheceriam de qualquer jeito. Mas não seria como é. O mais parecido comigo é aquele que ganhou o Nobel. Você o viu duas vezes, lembra ? E você sempre soube disso.

- Quero encontrar você. Não me interessa o que aconteceu nestes vinte e sete anos.

- Então espere por mim hoje, ao pôr do sol. Naquela praça que tem o mesmo nome de um poeta do Romantismo.

Estou esperando. Veja se não demora muito.

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