Tema 019 - FAZ DE CONTA
BIOGRAFIA
PARA UMA VIDA INTEIRA
Beto Muniz
Faz de conta que você é um garotinho de oito anos e hoje é seu aniversário. Diante de seus olhos estão todos os seus tios, avós, primos, amigos e, lógico, papai, mamãe e irmãos (já que você só está fazendo de conta, então pode ter quantos irmãos quiser). Todos em algazarra contida e sorrisos desembestados. Mas não é só isso! Uma mesa enorme está bem na sua frente e sobre ela todas as guloseimas que seu aniversário merece. Dezenas, centenas de doces empilhados ao lado de refrigerantes geladinhos, e bem no centro desse paraíso infantil, o bolo.

Não é um bolo comum, seu aniversário de oito anos merece um bolo diferenciado, então que seja: é o "Senhor Bolo!" No meio do bolo, uma vela já acessa. Tio Mário apagou as luzes e na semi-escuridão a chama da velinha ilumina os seus olhos e a proximidade hipnótica dessa mecha lhe parece quente como o carinho de sua mãe, que em puro êxtase eufórico bate palmas bem no seu ouvido, quase estourando seus tímpanos. Mas você nem liga, porque está totalmente concentrado na musiqueta que todos entoam sob o ritmo das palmas: "Parabéns pra você nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida...". É pique! É pique! É hora! É hora! É hora! Rá... Ti... Bum!!!

No "Bum!" em uníssono, você fecha os olhos enquanto enche os pulmões de ar e prepara as bochechas para dar vazão ao sopro que é o ponto culminante dessa festa. Com o apagar da vela em forma de número oito você adentrará um novo período da sua vida. Oito, sua idade desde hoje... Você escuta, ainda de olhos fechados, todos aclamarem seu nome, sente que sua mãe ainda não relaxou, pois agora crava os dedos nos seus ombros como se fossem garras. Antes que seja obrigado a gastar o ar preso nos pulmões num gemido de dor, você decide acabar logo com a chama vermelho-alaranjada, fecha o diafragma pulmonar, abre a garganta, dilata as bochechas, abandona as divagações e abre os olhos.

A vela está apagada. Aquele seu primo chato soprou sua vela! Com que direito?

O ar dentro do seu pulmão começa a queimar, seus olhos lacrimejam e sua boca permanece em formato de bico com as bochechas dilatadas. Mil sentimentos revolucionários passam pela sua cabeça infantil e finalmente você libera o ar misturado com saliva e amargura bem na cobertura colorida do bolo. Pode ser que você chore. Pode ser que você derrube o cretino com um murro na ponta do nariz ou no meio dos olhos. Pode ser que você apenas lance um olhar verde-ódio para o primo (o chato). Pode ser que você se solte das garras de sua mãe - ela ainda te prende pelos ombros. Será que ela não percebe que está te machucando?

Não adianta especular, sua reação pode ter uma infinidade de variações, mas de uma coisa é certa: a festa não será mais a mesma. Nem que os brinquedos presenteados sejam exatamente aquilo que você esperava desde o natal passado. Nem que o pirralho seja carregado pelas orelhas para longe da mesa. Nem que sua mãe acenda novamente a vela só para que você apague a chama. Nada vai refazer o elo quebrado.

Esse sentimento de frustração vai te acompanhar por toda a vida. Vai te lembrar que a qualquer momento alguém pode apagar sua vela e nunca mais você fechará os olhos diante de um bolo. Você estará sempre em guarda, pronto para impedir o primo chato... Como não queremos sentimentos ruins acompanhando você por uma vida inteira, faz de conta que nada disso aconteceu.

Faz de conta que você soprou a vela, a mecha se apagou, todos aplaudiram e continuaram sorrindo.

Faz de conta que o chato esperou pacientemente você assoprar as velinhas, cortar o bolo enquanto fazia um pedido, e como mandam as regras, você tenha dado o primeiro pedaço para a mamãe, o segundo pro papai e tenha ficado com o terceiro pedaço nas mãos. Agora sua mãe e mais duas tias estão distribuindo pedaços do bolo enquanto você, já fora daquele espreme-espreme em torno da mesa, ainda vê que o chato, o primo, recebeu um pedaço da massa coberta de glacê colorido e recheada com chocolate. Você o esquece, seus pensamentos estão voando novamente, procura algo, olha para o lado e lá está sua prima.

Ela olha ternamente, com seus olhinhos castanhos, e sorri timidamente segurando a ponta do laço no vestido rosa. Você devolve o sorriso e treme só de pensar que ela possa adivinhar qual foi seu desejo. Vacila por uns segundos, mas se lembra que já tem oito anos e deve ousar em seus anseios e sonhos... Sem contar que você ainda tem um desejo em haver. Lembra? Aquele! Feito ao cortar o bolo! Com a fé redobrada você se veste de coragem, vai até ela e, em silêncio, deposita nas mãozinhas de fada o terceiro pedaço de bolo.

Você já se acostumou a ficar vermelho de emoção ao lado dela, mas não entende seu coração que parece querer explodir dentro do peito. Deve ser algum sentimento novo, que só aparece depois dos oito anos completos. Antes que você empreenda fuga, ela te sorri e fica na ponta dos pés para agradecer com um beijo no seu rosto.

Definitivamente alguma coisa mudou no seu coração depois que você completou oito anos. Ele estava preste a explodir e agora, depois do beijo, bate estranhamente calmo, ritmado. Pode ser que enquanto vai se familiarizando com essa nova emoção, você não sente, mas seu ombro ainda dói. Dói, não dói? Faz de conta que não.

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