Tema 032 - NA CONTRAMÃO
BIOGRAFIA
ZAP!
Luís Valise

Amor assim não existia. Pela manhã, ao acordar, era ela quem primeiro aparecia no seu pensamento, varrendo da lembrança os sonhos em que não estivera, deixando um ôco vermelho de ausência. O pobre calçava os chinelos superpostos pela imagem daqueles pezinhos miúdos, macios, que tanto gostava de ver e aquecer em suas mãos. No banheiro olhava no espelho a saudade de olhos injetados, e deixava que a água do chuveiro levasse seu próprio eu pelo ralo, na esperança de que outra pele, alva e perfumada, recobrisse seu corpo desencantado.

Na mesa do trabalho a moldura prateada aprisionava o sorriso do seu amor, que passava o dia olhando pra ele com os olhos prometendo coisas que ele nunca tinha coragem de cobrar. E quando, finalmente, o escuro da noite entrava pela janela, era seu coração que clareava o caminho que o levaria até ela. Pegava suas mãos, dizia seu nome, beijava sua boca, e começava a viver. A felicidade durava até o exato instante em que a deixava em casa. O resto seria um arrastar-se mecânico até encontra-la outra vez, no outro dia.

Os fins de semana quebravam a seqüência de amor e dor, e então era amor, amor, amor e só então a dor. Mas do ele gostava mesmo era de comprar presentinhos pra ela. Ah!, a carinha que ela fazia ao abri-los... Dava umas risadinhas curtas, uns suspiros fundos, depois sentava-se no seu colo e perguntava (cheia de sabedoria): - Como posso te retribuir? E já ia desabotoando seu colarinho, soltando o nó da gravata, coração no coração.

O amor é possessivo, e então resolveram se casar. Maria (faz de conta que era esse seu nome) estava tão feliz que surpreendia Eusbórnio (faz de conta que era esse seu nome). Você me quer e eu te quero: - tudo.

Chovia torrencialmente, um caos, um dilúvio. Eusbórnio (suponhamos que esse fosse seu nome) dirigia com todo o cuidado, apalpando os próximos metros, quando um vulto surgiu em meio ao véu de água, acenando em desespero. Sem titubear, abriu a porta e alguém entrou empapando o estofamento. Um caminhão passou levantando ondas que atingiram o vidro das janelas, fazendo o carro balançar perigosamente. Ao seu lado a figura encharcada tirou o cabelo do rosto e sorriu agradecida. Era a Adriane Galisteu. Você já viu o sorriso molhado da Adriane Galisteu a dois palmos de distância? Eusbórnio (ou qualquer que fosse seu nome) se apaixonou instantânea e perdidamente. A lembrança de Maria (assim como seu nome verdadeiro) sumiu para sempre. Chegando num lugar seguro, Adriane agradeceu com outro sorriso matador e saiu do carro, deixando o homem só, agora lutando desesperadamente para ser alguém, ainda que fosse o Eusbórnio.

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