SÓSIA PERFEITO?
Lisa Simons
 
 
Anos setenta, um livro era referência aos praticantes da ideologia que privilegiava a felicidade, seu nome, "A Ilha". Escrito pelo mesmo autor de o "Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley, contava a saga de um casal em uma ilha paradisíaca, onde os habitantes viviam uma utopia: despiram-se de toda e qualquer vaidade, eram iguais perante a lei e as oportunidades eram compartilhadas por todos. Não me recordo bem o desenrolar da história, entretanto, um detalhe da narrativa me impressionou: na ilha fictícia, era comum o homem deixar sua mulher ser fecundada por um outro, para que a família fosse brindada com a vinda de um filho diferente dos seus. Admitia-se que isso possibilitaria o aparecimento de um músico em uma família de matemáticos, de um bom artesão ou uma excelente cozinheira, onde não houvesse tais vocações. Isso sem falar no temperamento, no qual uma boa mistura genética, poderia trazer para a convivência do lar, espíritos mais práticos, sensíveis, altruístas e quem sabe, mais equilibrados. A família era tratada como um imenso jardim, onde a beleza reside na diversidade de cores, formas e perfumes. Adolescente, vibrei com a maneira inusitada do autor ao formular a idéia e concordei naturalmente com ele - Existe coisa mais entediante do que tudo sempre igual? Essa fusão de raças, essa imensidão de espécies não seria talvez o que existe de mais sublime em nosso planeta?

Entretanto, na contramão dessa proposta de total desprendimento, a realidade mostrou-me um mundo bem diferente daquela ilha, mundo onde razões fascistas de antes, abafadas pela segunda grande guerra, se apresentam veladas sob o manto sublime das ciências, da evolução, da melhoria da espécie. Ironicamente é da Itália a primeira promessa da clonagem humana bem sucedida.

Afinal qual de nós não acalentou a fantasia de se perpetuar ou mesmo de ter uma segunda chance de vida? A reencarnação sabemos é possibilidade remota, ainda não apareceu alguém, absolutamente idôneo, disposto a testemunhar uma vida passada e, com base nela, reavaliar sua existência de forma lúcida e edificante. Em contrapartida o céu prometido pelo cristianismo e outros credos cairia bem, contudo o paraíso só recebe as almas puras, o que implica em muitos questionamentos:

- Será que somos dignos de adentrá-lo?

- Sejamos honestos, é possível ser isento de pecado?

- A comunhão tem o poder de redimi-lo?

Resta a possibilidade de um purgatório, onde se ficaria por um determinado tempo, à espera de redenção, mas essa tal hierarquia estabelecida para as almas - limbo, purgatório e céu de um lado, inferno de outro - é tão absurda e complexas as variáveis, que só pode ter sido criada por mortais e o que é pior, burocratas. Dá pra confiar?

Assim o mais lógico é acreditar que as ilusões do céu e da reencarnação nada mais são do que lucubrações formuladas pelo desejo de eternização latente em nosso código genético, além de um freio imposto por algumas classes oportunistas e dominantes. Também é de se reconhecer que a idéia da morte nunca foi muito bem digerida pelo homem, cuja evolução se deu paralela a um instinto individualista e perverso do "salve-se quem puder".

O fato é que apesar da quimera da perpetuação do espírito, jamais se valorizou tanto a carcaça como nos dias atuais, se bem que há mais de cinqüenta anos trabalha-se com a possibilidade da clonagem, técnica capaz de reproduzir um ser vivo a partir de uma única célula de seu corpo, o que não garante, afirmam os entendidos do assunto, uma duplicata perfeita de nossa modesta pessoa, já que fatores alheios ao DNA atuam, concomitantemente, na determinação de nosso aspecto físico, intelectual e psíquico (alimentação, clima, classe social, atividades físicas e didáticas etc.).

A clonagem seduziu e seduz a todos. Mas se fosse possível viver novamente, será que não cometeríamos os mesmos erros ao invés de buscar opções de vida condizentes com a nossa vocação? De forma alguma - argumentaríamos de imediato - seríamos certamente mais espertos, pois conhecendo nossas fraquezas trataríamos de revertê-las na mais tenra idade. Aquela barriquinha nosso clone jamais teria!

Sei, vozes se levantarão e justificarão com veemência: E os órgãos de reposição para os transplantes? E a cura de moléstias graves, terríveis? E a postergação da existência humana a limites inimagináveis?

Sem a clonagem seria isso possível? Talvez não, entretanto penso que se pudesse limitar as pesquisas a essas peças de reposição seria ótimo, só que dissimulada atrás dessa bandeira estão as reais intenções dos pretensiosos humanos, ou seja, a de se perpetuar. Eu consideraria relevante a pesquisa que abrandasse a fome no mundo, diminuísse as torturas físicas e psíquicas e nos propiciasse uma morte serena: digna e indolor.

Pois é, o que era possibilidade, virou realidade na iminência de ser concretizada. Nosso clone logo estará entre nós, fruto do narcisismo progressivo e canibalesco inerente a raça humana, ele será o veículo de uma missão sublime e única: ser aquilo que não somos e realizar missões que nos foram impossíveis em razão de nossas limitações pessoais, ou mesmo aquelas que abandonamos pela desídia e covardia. Exigiríamos muito desse replicante indefeso cuja trajetória é ser espelho de nossa arrogância. A ele serão destinadas atividades complexas, das mais excêntricas às mais perigosas. Não comeria doces, se tivermos tendência a engordar Ouviria somente clássicos, se somos músicos frustrados. Teria precocemente as primeiras lições de técnicas de pintura e desenho, se nos julgarmos um talento despercebido pela acuidade de nossos pais.

Sua individualidade, suas fraquezas seriam vigiadas, não o pouparíamos das atividades enfadonhas e cansativas, mas em sendo ele assim tão próximo da perfeição imaginada, nunca, jamais, poderia se assemelhar naquilo que somos realmente, em nada se pareceria com nós, verificar-se-ia a desigualdade dos iguais, a natureza triunfaria abreviando, quem sabe, a vida desse ser pela metade, dessa aberração, resultado da prepotência dos mortais.

 
 
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