ADEUS
Jorge Gomes Silva
 
 
Senti-me só naquela sala cheia de gente. Ouvia os sons, as vozes distantes de muita conversa fiada, diálogo de ocasião, mas não entendia o que diziam ou o que não queriam dizer.

Rostos anónimos lançavam-me olhares ocasionais, inexpressivos. Como se eu não estivesse ali. E não estava, de facto.

Vagueei pelo salão como um holograma transparente, personagem de fantasia num cenário irreal. Eu não era o protagonista. Talvez nem fosse sequer figurante daquela película muda que o destino me exibia, purgatório imerecido, assim o entendia.

Buscava respostas sem conhecer as questões. Eternamente na dúvida, sem perceber o que fazia ali e porque não estaria noutro lado qualquer. A deixar por fazer coisas diferentes, para quebrar a monotonia de uma existência absurda.

Ninguém me ouvia gritar, ninguém me acudia. A minha presença naquele lugar era menos que indesejada ou pouco mais do que indiferente. Por quanto tentasse, nunca conseguiria verdadeiramente estar ali. Num mundo que não era o meu, num tempo tão difuso que a minha parca compreensão da sua passagem não conseguia abarcar. Sentia-me só e queria saber-me quem. Mas não me sabia quando, nem porquê. Tinha cara de ponto de interrogação. E alma de caixeiro-viajante, sem nada para vender. Estava bera, o negócio de ser.

Cada vez era menos coisa alguma. Parecia afastar-me da realidade a que julgava pertencer, de forma proporcional ao meu esforço de integração. Para onde, não o sabia. Contudo, o caminho que tomara rumava para longe dali e dos outros lugares sem nome onde estivera ou não. Caminhava sempre no sentido oposto do ponto em que acreditava encontrar-me, andava perdido. E não fazia sentido andar às avessas, ou perder o norte a alguém que não existia. Seria?

Precisava pensar. Alinhar as ideias, estudar o guião. Desconhecia o papel que me cabia na encenação, como poderia representar? Se ao menos distinguisse o cariz da trama, vestiria o personagem em conformidade com a ocasião. Assim, palavras tolas, orelhas moucas, falava sem sentido, como um actor de comédia descontrolado no velório da sua pessoa mais querida. Sentia-me despropositado, também.

Recordei o sentido de uma frase de um filósofo radical alemão. Não há grandes homens, apenas bons actores a desempenharem o seu próprio personagem. Uma farsa permanente, a existência, tendia a concluir. Nas coisas sem sentido descobriam-se por vezes os nexos que faltavam. E desvendavam-se mistérios supostamente ocultos por mera distracção de quem os analisava. Pareciam simples as respostas para quem sabia o que perguntar. Mas a quem dirigir as questões?

Nunca a todas aquelas figuras de papel desenhadas numa plateia da vida específica, num dado momento, numa outra dimensão. Elas não saberiam responder, não entendiam as perguntas. Assistiam simplesmente ao desenrolar das tragédias das suas próprias vidas desperdiçadas a ignorarem o que teriam de mais importante para viver. Espectadores desatentos de muitas histórias sem final feliz. Fantasmas, no fundo.

Fez-se silêncio no salão quando as luzes se apagaram. Só o palco resplandeceu, com as cortinas de cetim a afastarem-se graciosas, a abrirem caminho para o actor principal. E esse actor era eu, tal como me conhecera.

Os aplausos soaram, como se numa fracção de segundo eu tivesse interpretado fielmente a minha passagem efémera pelo seu mundo. Choraram e riram comigo, mas partilharam coisa nenhuma.

Depois, o pano caiu. Eles permaneceram na sala, mal os ouvia à distância, na mesma cadência de discursos vazios, sempre à espera da próxima actuação.

E eu desapareci numa cortina de fumo, parti em digressão para outros instantes em busca de algo. À procura de mim.

 
 
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