PECADOS MUNDANOS
Beto Muniz

 
 

Antes de completar doze anos eu não sabia coisa alguma sobre sexo. Eu era o filho mais velho, que descobria as coisas do mundo por conta própria, e isso pode até justificar um pouco a falta de malícia, mas a culpa maior era por conta da religião paterna. Fui criado numa comunidade evangélica que preservava seus filhos dos pecados mundanos e, por conta dum puritanismo exagerado, meus instintos eram reprimidos ao cúmulo de ser castigado se fosse percebida uma ereção natural de menino que se torna rapaz.

Podia ser assunto proibido em família, mas a curiosidade formigava em meu cérebro fantasiando teorias onde sexo tomava a forma do fruto que Adão e Eva haviam colhido na árvore que estava no centro do paraíso. Aliás, todos meus medos e fantasias tinham origens e fins dentro da Bíblia que meu pai bramia diante dos meus olhos como se fosse uma espada divina pronta para decepar minha mão, ou meu membro, se um deles pecasse. Ah! Meus pensamentos - ameaçava-me o pastor -, estes seriam decepados no dia do juízo final.

Aos doze anos a doutrina do terror passou a ser confrontada com os desejos que brotavam cada dia mais insistentes, mais latentes e mais rijos. A mística da Bíblia-navalha não era empecilho para meus olhos. Eles se dirigiam gulosos para entre as pernas de Maria, despertando desejos desconhecidos que se avolumavam dentro do meu calção. Ela, sabendo muito mais sobre nudez do que eu em meus doze anos de vergonhas cobertas, afastava uma coxa da outra e oferecia uma ausência de pênis que eu desconhecia. "Decifra-me", pareciam dizer aquelas dobras verticais de carne rósea postadas lado a lado e encimadas por um chumaço de pêlos castanho-escuros... "Decifra-me".

O pouco que meus conhecimentos sobre anatomia permitiam, e o muito que a imaginação ousava, formaram um meio termo que eu me aventurei a desvendar sozinho, manualmente, por debaixo do cobertor. Maria não sabia de minhas noites, mas sabia de minha ignorância, e bastava ficar a sós comigo para abrir as pernas me ofertando possibilidades silenciosas. A cada dia eu sentia mais necessidade de estar próximo de Maria, mas foi durante a noite que me aproximei. Como que chegando ao fruto da árvore no centro do jardim do Éden, apalpei o fruto sem coragem de adquirir o conhecimento sobre o bem e o mal. Diante da certeza de que bastava eu querer que teria o fruto, meu corpo ardeu. Cego pelas doutrinas puritanas, eu confundi o fogo do desejo com a presença de anjos guerreiros portando espadas de fogo, ameaçando decepar-me. Recuei, fugi de Maria e de todo pecado que ela representava.

Por algum tempo eu evitei com fervor qualquer aproximação com Maria. Porém, num dia de chuva fiquei a sós com ela e suas pernas entreabertas gritando em minha mente: decifra-me! Decifra-me! Decifra-me... Eu tentei ignorar o desafio, mas em cada trovão eu ouvia os gritos dos mistérios de Maria: DECIFRA-ME! Meu espírito se rendeu e meu corpo afoito, com fome das carnes de Maria, saltou sobre ela. Eu era um animal ensandecido sem noção alguma de caminho, gesto ou procedimento. Ela afastou-me de si e eu percebi que estava nu. Mas já não importava, pois Maria cobria minhas vergonhas com mãos, boca, barriga e pernas sem recato algum de sua própria nudez... Chovia quando decifrei o enigma do bem e do mal e perdi o medo do juízo final. Desde então, por muito tempo, fui subjugado pelos pecados mundanos que Maria me ofertava, gemendo, sem desafio algum, "Devora-me!".

 
 

fale com o autor