QUANDO UM HOMEM AMA UMA DEUSA
Alberto Carmo

Chegou o dia, finalmente chegou. Os mais açucarados doces já estavam encomendados havia bom tempo; os CDs selecionados a dedo; os LPs também - afinal, ela é de boa safra, gosta de música boa, musa de melodias eternas.

E a beleza dela? Parece que cada noite estrelada, cada arco-íris que surge, os brotos das flores, todos parecem festejar a cada dia essa deusa que encanta os jardins e os olhos de qualquer ser humano.

O problema maior era escolher um presente que lhe fosse adequado. Ela, que em passadas eras certamente habitou castelos, dominou reinados e seduziu povos com sua ternura e formosura.

Caminhei lojas, butiques, perfumarias, joalherias. Nada que estivesse à altura do que ela significava. E o que significava ela? O amor, a ventura extrema, o limiar do Olimpo a um semi-terrestre como eu, que ousei me apaixonar por aqueles olhos de infinita beleza.

Que jóia encontraria um mísero servo como eu, que ornasse aqueles cabelos dourados, aquele sorriso infinito, aquele rosto de pétala? Ririam de mim os deuses, como a tripudiar de um mero pó que sonha galgar os ventos e lhes invadir a morada?

Não, eu não desistiria da odisséia que me surgiu num sonho do qual jamais vou acordar.
Percorreria todos os cantos, todos os mares, até encontrar a madrepérola de mais pura espuma, e dela forjaria uma imagem suprema.

As mais elegantes salas, os mais suntuosos tapetes, nenhum me conduziu a nada que a merecesse presentear. Já cansado, num quase remorso conformado de tamanha ousadia, pensei em me embebedar, como justo castigo por meu delírio.

Mas num instante de divino desatino, ou distração dos trovões, vi, em relance, o precioso objeto que lhe faria jus à beleza. Mandei embrulhar em delicado estojo, de fundo vermelho aveludado, que traduzisse minha tamanha paixão e o carinho que lhe dedicava.

Cheguei em casa em pleno sufoco; os poucos convidados já aguardavam na soleira. Entrei-os a todos e aguardei a chegada de minha musa embevecida. Mal entrou eu lhe entreguei o mimo encontrado. Meus olhos trêmulos palpitavam ao toque da magia elegante que ela cerzia ao abrir o fulgurante regalo.

Ela, naqueles gestos de deusa-menina, sorriu-me ao ver revelado o presente. Eu sorri em lágrimas apaixonadas, ciente de que minha ousadia ultrapassara todos os limites ao tentar enfeitar minha eleita com beleza tal que lhe fizesse par.

Olhei para o céu buscando uma penumbra entre as nuvens da noite prateada. Para lá elevei meu olhar mais impetuoso, sabedor de que havia ludibriado a arrogância dos deuses, que em fúria não mais zombariam, pois tamanho tesouro de beleza eu encontrara.

Ela me beijou, num gosto delicado de ambrosia e disse apenas:

- Obrigada, amor. Que espelho bonito...

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