O ESPELHO DO LAVABO
Carlos C. Alberts

O espelho do lavabo. Único na casa. 

Na imagem, uma bela mulher. Não bonitinha, nem bonitona, nem mesmo linda. Algo mais. Bela. Em todos os sentidos, provavelmente em qualquer cultura e em qualquer época. Bela. Não só o rosto. Não só o corpo. Nem mesmo apenas o conjunto. Os gestos, a voz, o olhar, o sorriso, o porte. Separados ou juntos. Belos.

Sempre fora assim. Quando criança e, mais tarde como adolescente, era, no mínimo, “maravilhosa”. Sentira os ciúmes da mãe e os da irmã. Ainda era a mais bela das três. Somente isto já seria uma façanha.

Mas o que a maioria das pessoas, principalmente as mulheres, considera fundamental para alcançar a felicidade, para ela era um problema. 

Inteligente, culta, curiosa, interessada, competente. Estas também eram suas qualidades. Orgulhava-se muito delas. Mas ninguém ligava. A sua beleza era tão grande que ninguém percebia suas outras características. Todos os homens que conhecera quando adulta somente se interessavam por sua aparência. Da mesma maneira que na família, também fora dela não tinha amigas. Todas as mulheres das quais se aproximou somente conseguiam vê-la como uma competidora. Ou, no máximo, como um ideal a ser alcançado. O que era ainda pior. Imaginou que se aproximando das mais bonitas esta situação mudaria. Estava errada. A vaidade era ainda maior. A competição só aumentava. 

Conseguia ótimos empregos, mas sempre desconfiou que era pela aparência. Revoltada, cometia falhas propositais. Sempre perdoada. Bela.

Tentou usar roupas que não combinavam as cores, ou os tecidos, ou com a ocasião. Invariavelmente era considerada ousada, exótica. Bela. Nem mesmo roupas velhas ou de baixa qualidade adiantaram. Tudo lhe caia bem. O mesmo com a maquiagem. Ou a ausência desta. Sempre bela.

Não engordava, nem emagrecia. A alimentação saudável não era imposta. Gostava de coisas saudáveis. Simples assim. Adorava fazer exercícios. Não demais. Nem de menos. 

Passou a conversar pouco com as pessoas. As coisas somente pioraram. Agora, além de bela, era também misteriosa. O pior é que gostava de pessoas. Mas estava se isolando porque ninguém a via. Viam somente sua beleza. 

Relacionava-se na Internet. Lá ninguém conhecia sua aparência. Mas lhe faltava o contato físico. E, com o tempo, suas outras características também ficavam evidentes. Sua inteligência, cultura e sensibilidade também lhe causavam problemas. Mas de outro tipo. Afastavam os “amigos” virtuais.

Sua única esperança havia sido a perspectiva de que, quando ficasse mais velha, os efeitos do tempo sobre a aparência lhe permitiriam viver de forma mais normal. Mas já não acreditava nisso com tanto entusiasmo. Sua mãe, agora com sessenta e três anos de idade, continuava belíssima.

Depois de meditar muito sobre sua situação, concluiu que não poderia mudá-la. E, assim como muitas pessoas pouco atraentes, ou pouco cultas, ou pouco inteligentes, ou tudo isto junto, e apesar disso, resolveu que iria viver. Da melhor maneira possível. Tentaria ser feliz com o que era. E, da mesma maneira que os muitos que tinham problemas opostos ao dela, também jogou no vaso sanitário os vinte e cinco comprimidos para dormir. Que segurara durante as últimas duas horas. Enquanto olhava sua imagem no espelho. 

Pegou a bolsa e um agasalho e foi apreciar o nascer do sol. Na praia que ficava em frente ao seu apartamento. 

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