ADEUS À SOLIDÃO
Ivone Carvalho

Na varanda, encostada no batente da porta da sala, em pé, pernas semi cruzadas, braços cruzados, contemplava o horizonte. A tarde primaveril tinha o perfume das flores do campo e o sabor de verão. O vestido branco de crepe dava mais leveza ao seu corpo, mostrando parte das coxas bem feitas e o colo que, através do decote acentuado, mostrava a beleza dos seios que guardavam um coração apaixonado. 

A casa confortável, localizada no centro da chácara onde residira com os pais enquanto eram vivos, tornara-se grande demais para ela que preferia a vida solitária, mas com a liberdade que lhe fazia bem. 

Com a morte dos pais, decidira escrever o tão sonhado livro, aproveitando o tempo ocioso que lhe sobrava, diariamente, quando voltava da escola onde lecionava.

Havia interrompido o trabalho literário, naquele momento, porque não conseguia transformar, em palavras, a sua inspiração. 

Sua mente era dominada por alguém que modificara sua vida, sem mesmo se conhecerem fisicamente. Tudo começara numa troca de correspondência eletrônica, havia meses e, desde então, passaram a se conhecer mais a cada dia, permitindo-se, no início inconscientemente e, depois, propositalmente, que ele enxergasse toda sua alma, conhecendo profundamente o interior do seu ser. 

Encontrara nele o amigo que tanto precisou quando atravessou momentos difíceis. Fez dele o seu companheiro dos momentos de solidão. Sentiu reciprocidade e entregou-se à paixão que foi regada por ambos, fazendo brotar as flores mais perfumadas que um jardim poderia ter. 

Flagrava-se, freqüentemente, absorta em seus pensamentos, que a faziam viajar num mundo desconhecido, em terras diferentes, costumes diferentes e nos braços de quem incitava essas viagens. 

Naquele momento, na varanda, ela estava novamente perdida nas suas ilações. Olhava as nuvens branquíssimas que pareciam algodão doce formando figuras através das quais ela parecia ver ora o rosto do homem tão querido, ora duas bocas se beijando, ora dois seres abraçados, ora anjos brincando no céu. 

Ouvia os pássaros cantando alegremente uma verdadeira sinfonia dos deuses. 

Observava o colorido das flores que davam ao terreno um cenário celestial. 

Lembrou-se da sua própria imagem. 

Há quanto tempo não observava mais a sua própria aparência? Sabia que não poderia estar tão feia, porque tinha naturalmente um semblante terno, não comia com exageros, buscava vestir-se sempre com roupas que combinavam com o seu corpo esguio e não muito alto. Gostava de cores alegres, mas sempre se harmonizando com a cor da sua pele clara, preferindo não misturar cores quando se vestia. 

Mas sua rotina diária não fazia com que ela se lembrasse, constantemente, de usar cremes e cosméticos que cuidassem melhor de sua pele, prevenindo as marcas que o tempo vai deixando no rosto e no corpo à medida que a idade avança.

Entrou e pegou um espelho. Pensou em ligar o som, ouvir as canções que sempre ouvia, em baixo volume, que falavam do amor que sentia. Mas desistiu. Preferia continuar se embevecendo com a melodia dos pássaros. 

Voltou para a varanda. Observou a pele do rosto cuidadosamente. Não havia, ainda, sinais de rugas. Olhou o colo e achou bonito o decote do vestido; sentiu-se sensual. Voltou aos cabelos. Estava na hora de tingir as raízes que já mostravam vários fios de cabelos brancos. 

Sorriu pensando na vaidade que voltava a fazer parte de sua vida. 

Tinha sido preciso sentir amor, imaginar um possível encontro com o homem que amava, para lembrar-se que deveria estar se sentindo bonita quando isso acontecesse, porque assim, talvez, ele também a enxergasse como mulher bonita em sua embalagem, já que a beleza interna ele conhecia como ninguém.

Abaixou o espelho, colocando-o sobre a mesa existente no alpendre, aproximando-se mais da frente da varanda, onde deixou os pensamentos novamente viajarem para as terras distantes, onde deveria estar aquele que modificava, pouco a pouco, o seu modo de viver, de pensar, de sentir. O homem que lhe trouxera de volta a alegria, a certeza de vida, o romantismo, a inspiração e até a vaidade!

Encostou novamente o seu corpo numa das colunas do alpendre, recostando a cabeça. Fechou os olhos. Deixou-se ouvindo a melodia angelical cantada pelos passarinhos. 

Uma suave brisa tocou seu rosto provocando seu sorriso e o descerrar dos olhos. 

Não acreditava no que via! Era ele, tinha certeza que era ele! 

Aquele homem que se aproximava sorrindo, exultando em felicidade, ela nunca tinha visto, mas sentia, todo seu corpo confirmava, a sua alma denunciava: era ele! Sim, pela primeira vez ela sentia suas energias vibrando com a aproximação daquele que a transformara numa mulher feliz. Inexistia qualquer dúvida. 

De repente ela sentiu pressa. Pressa de acolher aqueles braços que vinham abertos em sua direção. Trêmula, sentindo as mãos esfriarem e o corpo suar, correu ao seu encontro, beijando ardentemente, pela primeira vez, o seu grande amor que, não mais suportando a distância, viera transformar os seus sonhos em realidade.

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