JULIO/20/MIÉRCOLES
Eduardo Prearo
 

Não tem lar, nem mais perfil pra paripatético de esquinas, nem roupas para feichtas (sic); não tem mais nada, que boschta (sic). Kevin pára de pensar, mas lhe voltam vez ou outra aqueles sentimentos de incapacidade e desamparo. Vagabo! Fez tudo errado esta manhã, esta tarde, ontem. O infeliz tem saudades do fogão, de coisa assim ele tem saudades. Na agenda dele esconde-se uma pétala de rosa amarela desumectada. Também há receita de leite condensado:

1 colher de maisena ( colher de café )
1 1/2 xícara de açúcar
1 colher de fermento em pó ( colher de café )
1 litro de leite A

Preparo: pôr tudo com cuidado em uma panela funda, levar ao fogo e ir mexendo até chegar ao ponto de condensação.

Kevin passeia pelas ruas, perde seu tempo e tempo é dinheiro, não é assim? Ele perde dinheiro. Não sei, creio que seja assim, que tempo seja dinheiro. Meus clientes estão indecisos, estão protelando o fechamento das vendas. Mas a culpa é minha, da minha depressão mais que da do país. Kevin tem Ivana, uma namorada grega, ou melhor, tinha. Kevin não sabe o que é a vida...eu também não acho que sei. Sinto-me próspero e estagnado. Kevin procura lugar para dormir. Hotel me. Prosperidade faz parte da minha vida, a população desconhecida faz parte da minha vida. Hotel me. Ivana era megera; mas agora distante, é bela. Tenho medo do medo que os outros possam vir a ter dos meus erros. No quarto, Kevin descobre uma benção: goteira de café. Toma mais um pouco do remédio, olha-se no espelho e a imagem refletida lhe diz:

--- Você é um javali.

--- Não, não, sou cobra. Quando javali?

--- Em outra vida, quando você era chinês.

--- Sou cobra de libra e acho que a paz é que é coisa de homem.

Escrevo dentro de um terremoto, mas sinto que a lucidez vai jorrar um dia. Penso em Deus, não mais nisso ou naquiloutro. Ave Maria, rogai por nós, por todos nós. Internaram Kevin em um lugar para loucos. Lá pelo menos tem um fogãozinho, tem um teto. Kevin, super-sedado, prepara o docinho. Vai mexendo o doce e lembra-se da blitz, dos travestis arrastando os sapatos a noite toda, das ameaças sutis, da ganância, da falta de proteção. Não há talvez ferida para ser curada; afinal, ela nunca existe para eles. Se ela realmente existe, Kevin talvez não a perceba, pois todo sofrimento aqui é de caráter supercomum.

 

 

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