A NOITE TRANQÜILA
Osvaldo Pastorelli
 
 

Olhando para o céu estrelado, pensava nos últimos acontecimentos. Nunca tinha visto um suicida e, ao ver a cabeça do soldado banhada de sangue, estourada por uma bala, fez com que descobrisse que a vida nos leva agir impensadamente. O que nos faz agir impensadamente era o que realmente me afligia naquela noite que parecia calma.

A noite gostosa, o céu estrelado, mais de três horas da madrugada, tudo parecia parado, até o ar dava a impressão de estagnado. Nada mais deveria importunar aquela madrugada. O quartel ressonava numa cadencia única e, fazendo a ronda, deseja que o restante do meu plantão fosse o mais calmo possível. Não sei porque, mas ao virar a cabeça, que olhei para a janela do banheiro, vi que ela se apagava. Aquela luz era a única que ficava acesa a noite toda. Porque foi apagada?

Esperei mais um pouquinho. Não ouvia nenhum barulho. De repente, comecei ouvir vozes abafadas, num sussurro velado.

Esperei mais um pouco. Agora o que ouvia era uma respiração ofegante.

Devagar, sem fazer ruído, parei na porta do banheiro. Vi dois vultos no fundo do lado direito. Um abaixado e o outro em pé.

Acendi a luz. Sem poder acreditar vi os dois soldados, o Costa e o Afonso. O Costa quando me viu, deu um empurrão no Afonso, ergueu as calças e saiu correndo, quase me derrubando ao passar por mim. Afonso, apavorado, sentado no chão, com a expressão abobalhada, branco, não sabia como agir, se falava ou se levantava.

A razão dizia para sair dali, mas o corpo não queria reagir e a mente não conseguia se impor, o corpo petrificado permanecia na porta do banheiro. Por fim, me aproximando, gritei:

- Levanta Afonso.

- Escuta... Entenda... Se você quiser... Não conte para ninguém por favor...

A princípio não respondi. Deu-me uma vontade de esmurrar o sujeito.

- Olha se quiser eu faço...

Afonso tinha se levantado e estava perto de mim.

- Você precisa entender... Fui obrigado... Ele me obrigou... Eu não queria... Entenda!

Sem que eu percebesse, estava colado em mim e sua mão deslizava pela braguilha da minha calça. Dei um safanão. Sai dali com raiva dos dois e de mim, achando-me o ser humano asqueroso, fraco vil, se deixar se submeter aos desejos mais torpes só para se satisfazer.

O soldado Costa, um tempo depois, acusado de assediar outro soldado, foi expulso. O Afonso foi ser ordenança de um Tenente que possuía a fama de afeminado e nunca mais foi visto.

Assim foi mais uma noite tranqüila no quartel.

 
 
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