ALMA NO VARAL
Claudia Sanzone
 
 

Hoje fui lavar minha alma. Precisava dar um jeito no cheiro de coisa guardada, meio mofada. Percebi que o momento era propício. Em princípio não me pareceu que a tarefa seria das mais difíceis. Até porque, não me senti com ares de quem daria à luz, assim ao tempo, algo muito complexo. Reservei um varal simples, de sisal. Separei uns pregadores de madeira, daqueles com duas molinhas laterais, às vezes meio cortantes.

Ventava um pouco e aguardei a chuva, que deveria me auxiliar a iniciar o trabalho. Enquanto caiam os primeiros pingos comecei a remover tudo de dentro. Parto induzido, doeu-me um pouco mais do que eu supunha. Mas logo me dei conta de que a cesta de vime artesanal, incumbindo-se de função manjedoura, acolheria, tranqüila, meu conteúdo como um lenitivo.

Agora chegava o momento de pendurar meu íntimo. Olhando-o assim, frente a frente, o mofo acumulado atrapalhava a visão que eu tinha dele. Pouco provável que a recíproca fosse verdadeira. Deixei que a chuva densa e aquele vento luxuriante que precede tempestades se combinassem e se encarregassem de molhar e ensaboar minha alma, trazendo-me lucidez. Expus ali, peça por peça, uma variedade farta: medo, ansiedade, alegria, frustração, paixão, egoísmo, piedade, saudade, fúria, arrependimento, euforia, ilusão... Um vestuário sem fim.

Depois de lavada minha alma, experimentei a leveza de vê-la nua, clara e exposta. Peças que traziam erros e acertos, carência e fastio. Momento meu, recompensador e necessário, que exigia solidão. Findada a tempestade, bastava aguardar mais uns instantes para que a alma secasse, pegasse mais ar. Depois eu a recolheria, assim planejei. Absorta e indefesa, não notei que havia gente espreitando meu ato solitário e desarmado.

Aproximaram-se homens cheios de discursos com suas conclusões sobre o que não lhes dizia respeito. Retirei apressadamente meu interior da corda de sisal e feri minhas mãos com as farpas dos pregadores de madeira. Praticamente degluti aquilo que desejava reabsorver paulatina e serenamente. No afã de me proteger, alguns tentaram me confortar. Um grupo se admirou com o que assistiu, ao passo que outros se frustraram.

Roguei que meu homem, um sabedor das entrelinhas e de poucas palavras, ali aparecesse. E assim se fez. Reconheci meu amado no instante em que vislumbrei a liberdade de minha imagem debruçada em sua retina. Como de costume, ele de mim nada exigiu. Só lhe interessava amenizar as cicatrizes que não tardariam em minhas mãos doloridas.