PAIXÃO: SONHO DE CONSUMO
Djanira Luz
 
 

O sonho daquela mulher não se encontrava em lojas, shoppings, magazines. Não se achava para comprar em lugar algum. Aquele sonho de consumo, na verdade, não estava à venda. Não era roupa, carro, jóia, perfumes, cosmético. Geórgia estava apaixonada, perdidamente apaixonada por Douglas e ele era tudo que ela desejava possuir nos últimos meses. Ter Douglas em seus braços, poder abraçá-lo, acariciar seus cabelos, beijá-lo apaixonadamente.

Geórgia não fazia idéia como pôde se apaixonar assim do nada e principalmente por alguém que conhecia tão pouco. Mas a beleza da paixão é essa, não ter explicação. Só em ver ou de ouvir a voz de Douglas, as batidas do coração dela aceleravam. Geórgia tinha a sensação de sentir o coração pulsar na garganta; a respiração ficava acelerada e curta, como se o ar lhe faltasse; as mãos trêmulas, a voz embargada, uma leve gagueira. Sentia-se ridícula por estar tendo toda aquela reação peculiar que sentimos quando se é jovem apaixonada. Começou também a ter pensamentos lascivos, desejos ardentes, sonhos eróticos. Ficava horas tocando o próprio corpo nu, imaginando o que poderia fazer com Douglas. Começou a ter novas sensações. O toque suave de seus dedos correndo pelas partes íntimas, a excitava. Tudo isso era conseqüência do amor que nutria por ele. Não! Ela era correta demais para aceitar aquele sentimento perturbador. Precisava parar de pensar em Douglas aqui, Douglas no escritório, Douglas bem ali no seu pensamento, na sua cama...

Todo aquele sentimento estava atormentando o coração e a vida daquela mulher de quarenta e poucos anos. Sabia que precisava pôr a cabeça no lugar, voltar para Terra e sair do mundo da fantasia que aquela paixão ardente a colocara. Era um misto de sentimentos. Excitação, alegria, medo e culpa. Pensava em Douglas, era só alegria, prazer e o desejo de fazer amor com ele. Mas, quando pensava em casa, tinha medo e culpa por imaginar trair o marido e os três filhos... Aquilo estava acabando com ela, a vontade oferecida pela paixão avassaladora e a culpa sufocante inibindo, freando qualquer tentativa de entregar-se ao homem que acreditava estar amando perdidamente. Não queria magoar ninguém. Seu companheiro de quinze anos, de sonhos e realizações; perdas e danos; alegrias e lágrimas, não merecia aquilo. Tinha ainda os filhos que prezavam tanto aquela família unida.

Geórgia passou a semana angustiada, sem saber que caminho seguir, que decisão tomar: ceder aos impulsos do seu coração ou resistir aos encantos de Douglas. Pensou em encontrar-se com ele, de se entregar, fazer amor com toda paixão que sentia, pois seu corpo ardia em desejo. Aquele sentimento era tão poderosamente forte, que a impedia de pensar com sensatez! Será que valia a pena arriscar tudo por um encontro onde a paixão talvez fosse unilateral? E se ele só estivesse entrado nessa pela oportunidade que ela ofereceu? E se ela se arrependesse depois? Ou se Douglas não fosse de perto aquilo que de longe demonstrava ser? E se ela gostasse tanto do encontro? Ou se ele se apaixonasse também? E se, ou se... Geórgia estava na maior dúvida Shakespeariana da sua vida: ser ou não ser infiel," to be or not to be..." Ela jamais havia se apaixonado por outro homem depois que se casou com Horácio. Por que justo depois de tantos anos, o coração foi traí-la por aquele amor intenso? Amor que lhe tirava o sono, a paz; mas ao mesmo tempo, enchia-lhe de vida, alegria, vontade de extravasar toda aquele fogo que corrida pelo corpo, fazendo pulsar o coração, renovando a capacidade de sonhar, reinventar, construir,modificar, melhorar!!! Todo aquele amor serviu para saber que independente da idade que se tem, pode se apaixonar, pois o coração, não envelhece.

Geórgia resolve confessar o seu amor a Douglas. Encheu-se de coragem, ligou para ele, abriu o coração, dizendo estar perdidamente apaixonada. Ele recebeu com contentamento a declaração, mas respondeu já saber, que havia percebido há muito tempo e que também gostava dela. Apesar de ter ficado envergonhada por ser tão evidente, de demonstrar claramente seu amor, aceita encontrar-se com ele.

Desencontros, certeza e dúvida. Perdida e confusa, Geórgia começa a conflitar-se com o que sente e com o que pretende fazer. Dupla perigosa: paixão e traição. Será que estava preparada, será que teria coragem de se despir para outro homem depois de tantos anos? Será que se deixaria ser tocada por outro, se há quinze anos era tocada por apenas um homem? Valeria a pena? Ora, achava que seria maravilhoso. Ora acreditava que seria uma tolice. Ora acha que deveria ir, ora acha que não... Todo aquele "achismo" a estava enlouquecendo! Decidiu desistir, adiar o encontro para descobrir o que realmente queria e deveria fazer. Douglas não acatou bem a decisão dela, entretanto, nada declarou. Combinaram marcar um outro dia, então.

Em casa, queria chorar, mas não podia, pois motivo não havia. Os filhos e o marido iriam perceber. Foi para o banho, e lá debaixo do chuveiro chorou. Pela primeira vez, depois de muitos anos, chorou por amor. Chorou por não ter coragem de entregar-se ao homem que estava apaixonada. Chorou por não conseguir, por não ter coragem de trair o marido, de magoar as crianças. Chorou porque teve que sufocar aquela paixão, implodir no peito todo aquele amor e desejo. Chorou porque teve de pôr em extinção aquele vulcão de desejos que tomava conta do seu corpo. Maquiando sentimentos, saiu do banho reclamando do shampoo nos olhos.

Passado alguns dias, ainda sob efeitos da paixão, Geórgia optou pela resistência, pela superação. Não iria trair. Seria fiel a duras custas. Não poderia deixar ruir uma família pelo capricho de uma paixão inconseqüente. Sofreria, estava sofrendo, mas com resignação, não faria sofrer ninguém. Aquela paixão, aquela dor, era egoisticamente sua. Haveria de superar. Mulher forte e determinada, sentia-se ruída por dentro; mas era convicta que ao fim, sairia reestruturada dessa paixão que quase a corrompeu.

Pega a bolsa, a chave e sai. Olha as vitrines, vê algo que gosta. Passa em frente ao escritório de Douglas. Suspira, sorri e diz baixinho:

- Adeus, meu sonho de consumo...