ANGÚSTIA
Raymundo Silveira
 
 

Ia dizendo que é um sentimento. Não é! É um estado permanente de medo, desamparo, amargura, tristeza, desesperança e solidão. Parece que a Terra deixou de existir como um lugar habitável. Não existe afetividade, motivação, alento, ilusão, vontade, desejo nem qualquer outra emoção reconfortante. Cada ato é um sobressalto; cada passo, uma sobrecarga; cada pensamento, uma aflição. Palavras como amor segurança, paz e esperança não fazem sentido algum. Parece que só conseguirei escrever isto. Uma nuvem escura turva-me as idéias.
Levanto-me e me estendo no leito. Tento ler. Mas cada palavra é um açoite; cada frase, uma descarga de algo no meu sangue que me resfria as palmas das mãos e a planta dos pés. Atiro o papel ao chão e tento concentrar meu pensamento no nada. Estranho! Como é que se pode concentrar o pensamento em nada? E mesmo assim eu tento. Como não encontrei um nome para o que estou sentindo, vou chamá-lo simplesmente aquilo. O que faço são tentativas desesperadas a fim de evitar aquilo. Voltei para este computador e insisto em escrever. Não há nenhum raciocínio coerente no que pretendo dizer. Simplesmente vou escrevendo aleatoriamente tudo o quanto me ocorre. De cada dez palavras que tento digitar apenas uma delas o processador de texto aceita sem reclamação. Sim, os traços vermelhos que sublinham as palavras grafadas erroneamente, são gritos de protesto contra mim por teimar em escrever sentindo aquilo. Meus dedos não obedecem às ordens confusas emitidas pelo cérebro. Chego a me irritar com o teclado acreditando que estaria mal configurado. De fato, existe mesmo uma má configuração irremediável, mas esta ocorre dentro da minha cabeça. São os bytes dos meus neurônios que estão afetados. E para este software danificado pelo tempo, pelas amarguras, pelas decepções, pela dor, não foi inventado ainda nenhum programa capaz de corrigi-lo.
Levanto-me novamente. Foi necessário escrever três vezes as palavras levanto-me a fim de que a ortografia pudesse ser obedecida. Vou à janela. Um desfile de veículos flui incessantemente em ambos os sentidos. Fico a imaginar o que se passaria pelas cabeças dos seus passageiros. Quantos se sentirão felizes? Nenhum, por certo! Do contrário não sairiam em busca de coisa alguma. Quantos estarão serenos? Pouquíssimos; talvez um em mil, se tanto. Não creio que alguém possa sentir serenidade em meio àquele tráfego caótico. Quantos estarão na expectativa de alcançar algo que possa melhorar as suas condições existenciais? Todos, certamente. Mas se decepcionarão logo. Mesmo aqueles raríssimos que lograrão alcançar plenamente as suas metas, pouco tempo depois também se frustrarão, pois descobrirão que nada daquilo fez diferença em suas vidas. Tais qual uma criança quando recebe um brinquedo pelo Natal ou pelo aniversário. O primeiro impacto é uma incrível ventura. Parece que todos os ideais colimados foram, enfim, atingidos. Pouco mais tarde descobrirão que nada daquilo as satisfez. Alguns chegarão mesmo a cogitar: "como fui ingênuo por anelar a tão insignificante projeto!". Mas, nada disto impede que aquele ideal frustrado seja imediatamente substituído por outro, e depois por outro mais e mais outro. E assim sucessivamente, porque aqueles pequenos objetivos e as suas respectivas frustrações ficaram para trás. Às vezes considero que isto é a única razão para alguém se apegar à vida. É esta bipolaridade contínua de êxitos e fracassos - e nada mais - aquilo a que chamam instinto de vida. Por outro lado, quando este deixa de existir, nada mais interessa. Este desalento é o verdadeiro castigo da condição humana e não a própria morte, em si, como muitos apregoam. Neste exato momento é o que está me acontecendo. Não tenho nenhum ideal. Tanto faz morrer agora, como amanhã, daqui a um ano, dez, vinte ou quarenta. A minha caixa de Pandora está absolutamente vazia. Dela escapou tudo, inclusive a tal esperança de que muitos falam e eu nunca tive o prazer de conhecer. Nada me interessa. Não procuro nada. Nada me atrai. Não sou como os passageiros destes veículos que trafegam diante da minha janela em busca do seu ideal. Não porque me sinta incapaz de alcançá-lo, mas porque me fartei dele por antecipação. Sem querer, me lembro da Tabacaria, de Pessoa. Mas não há Tabacaria e nem nada defronte da minha janela. Existe apenas um oceano de angústias onde me afogo, sob um céu de desespero.