Tema 193 - O QUE FOI QUE EU FIZ?
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DESTA PARA MELHOR...
Doca Ramos Mello

Há um bom tempo decidi que não vou ter velório.

Sosseguem, nem me passa pela cabeça trocar esta por uma (dita, mas não comprovada) melhor, ao menos por enquanto. Sinto-me bastante felizinha por aqui mesmo, neste mundo desgraçado, onde tenho de suportar por um bom tempo ainda V. Exa. Metalurgíssima et caterva. Sim, o cabra muitas vezes me faz pensar em morrer, dar um tiro de misericórdia no ouvido. Mas, na verdade eu morro um pouco cada vez que ele fala uma besteira, que mente com aquela maldita cara de pau, quando arrota suas metáforas deprimentes, sempre que aparece na tv para algum pronunciamento idiota, quando fico sabendo das mutretas e maracutaias de seu governo, enfim, morro todos dias, todas as horas. Por esses dias, quase enfartei quando o vi abraçar o Collor, oh, Senhor, que mais sobrevirá?! Porém, a esperança de que ele saia do foco um dia me impulsiona a continuar a viver, Deus é Pai e não me permitirá bater as canelas antes que o cabra e sua tropa vão para os quintos dos infernos, amém!

Não consigo me controlar, perdão.

Um aparte. Li em reportagem recente que o homem poderá viver até mil anos, em função dos avanços científicos. Agradeço penhoradamente, mas estou fora. Porque do jeito que vai a propaganda que obriga todo mundo a se manter sempre jovem e, pior ainda, fazendo boa parte das besteiras que só se podem desculpar na juventude, me preocupei. Até aqui, tenho me mantido lúcida, com a graça de todos os santos, mas quem me garante que não vou surtar e fazer a Suzana Vieira do novo milênio, aos 900 anos me envolvendo com um moleque de 500?! Credo...

Eu dizia que não pretendo ter velório. Decidi isso escolada nas caras de mosca de padaria que fazem as pessoas em torno de um morto, a louvar-lhe os feitos, o caráter, ah, excelente figura, que amor, tão bonzinho... Esta última parte é a que mais me assombra o espírito - imagine alguém falando de minha ilustre pessoa desse jeito, ali, à beira do meu caixão, e eu sem poder fazer nada...?! Nem vem. Seria mais apropriado se dissessem "ah, mas era tão ruinzinha"... E alguém se atreveria? Duvido. Porque a Morte tem essa coisa meio solene, é fechar os olhos e passa o morto a ser um anjo de candura, ah, morreu tão cedo, coitado, não merecia, ainda ontem estava ali, de repente, olha só, puf, que vida...

Não quero isso p'ra mim, de jeito nenhum. Não desejo que me fiquem escrutinando a cara falecida nem fazendo comentários... E como sofro de claustrofobia, também não me disponho a ser enterrada porque vai que eu acordo lá embaixo da terra, Santa Maria Madalena, que terror, eu morro de vez! Tenho pesadelos com isso, sabiam? Então, serei cremada. Estou deixando tudo isso escrito aqui para que ninguém venha fazer gracinhas comigo na hora H, heim? Prometo puxar a perna de todo mundo, se não me obedecerem às ordens, e devo começar isso ali mesmo no tal velório, ah, acreditem...

Renovei com mais intensidade esses votos depois do showneral de Michael Jackson, pobrezinho, cuja cara de boneca de louça ninguém tem certeza de que tenha sido enterrada até agora, que lástima! Não sou celebridade e, ao contrário de Sarney, sou muito comum, mas isso não significa que não possa ter um showlório, até porque as pessoas comuns agora estão imitando os famosos em tudo! Basta ver os programas de tv em que gente do povo se exibe e destampa suas intimidades diante das câmeras, rachando o barraco sem a menor cerimônia. É mãe chamando filha de vagabunda, é marido contando o corno que levou da mulher, é amante cobrando do marido da vizinha a casa que ele prometeu a ela quando tiveram um caso, é filho esculhambando pai, é avó revelando detalhes de seu affair com o neto, é uma coisa indecente! Os apresentadores só fazem incentivar a baixaria - aí, vovó, o neto satisfaz a senhora? -, pois quanto maior o barraco, mais indigência particular exposta, maior a audiência. Essas coisas só perdem em ibope para mulheres frutas exibindo a bunda ou alguma declaração gay.

Cristo Redentor!

Voltando ao pobre do Michael Jackson... Antes pedófilo, esquisitão, tantã, pai irresponsável, hipocondríaco, racista, eis que, uma vez morto, virou um santinho de altar! Pais e irmãos que sabidamente nem tinham grandes relacionamentos com o cantor pop - inclusive uma de suas irmã havia afirmado que ele deveria mesmo ser pedófilo, sem contar as histórias escabrosas que a mídia coleciona a respeito do pai do moço - trataram de se paramentar até com luvinhas iguais para o showlório. Quem perderia a chance de aparecer nas telas da tv no mundo inteiro? Daddy, ao saber da morte do filho mais famoso, antes de lamentar e mesmo sem derramar uma única lágrima, fez marketing de um grupo que estava prestes a lançar!!! Brook Shields encenou a ex-namorada emocionada. Meio mundo cantou, deu depoimento.

E o morto lá, encerrado no caixão dourado - se é que estava lá mesmo, tenho minhas dúvidas -, sem poder dizer essa boca é minha, coitado! Devia estar cogitando com seus botões também dourados: "O que eu fiz para merecer isso?".

Desconfio que só Diana Ross e Liz Taylor, que não compareceram ao showlório, podem ter sentido algum sentimento de pesar pela morte do pobre. Tomara. No mais, foi tudo a velha e boa pantomima da Morte, esta senhora estranha cuja agenda secreta mantém um horário reservado especialmente para cada um de nós. Ainda assim, fazemos questão de viver como se ela não estivesse programada para aparecer quando bem queira, porque é o jeito que temos de acreditar que a estejamos enganando...

Inevitável, tudo bem. Agora, fazer de sua visita um happening é muito para minha cabeça. E enfrentar um velório sem defesa nenhuma, tendo de aturar discursos falsos, caras e bocas, lágrimas crocodilais, carpideiras, lamentos e comentários, francamente, falecido nenhum merece. Já chega estar morto (situação mais desagradável), vamos dispensar a papagaiada. Não acabaram com o luto? Pois acabemos com o resto do ritual, incluindo o cemitério. Da minha parte, declino das exéquias, pelo amor de Deus, me deixem ir sem salamaleques, assim, ó, fui! Depois, eu dou um jeitinho de avisar, hehehehe...

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